Entrevista com Elisabete Jacinto

Notícias - Entrevistas @ 1-2-2005

Elisabete Jacinto, a piloto portuguesa conhecida pelas suas participações no Dakar em moto e mais recentemente e camião, esteve este fim-de-semana no certame da Batalha para apresentar o seu recente livro “Os Portugas no Dakar”.
Uma leitura divertida, em BD, recheada de histórias e estórias da participação portuguesa na prova rainha do todo-o-terreno.
Com a assinatura de Luís Pinto Coelho nos desenhos e textos de Elisabete Jacinto, é uma obra obrigatória para amantes das duas rodas (mas não só), que nos leva a conhecer em detalhe as mil e uma peripécias por que passam os concorrentes da afamada prova, e principalmente por que passam os “Tugas” com a sua, já habitual, propensão para o desenrasque.

O TudoSobreRodas aproveitou a oportunidade para trocar umas palavras com a maior representante portuguesa de sempre no contexto do motociclismo feminino, a única mulher portuguesa a concluir um Dakar e primeira no mundo a concluir a prova em camião.

Faça-nos um breve apanhado de como lhe correu este Dakar.
Para mim foi um Dakar particularmente difícil porque, embora as etapas não fossem aparentemente muito longas - há etapas de 1000 km - este ano o máximo era 660. Pareciam etapas simpáticas, mas a realidade é que quando pensamos que vamos fazer uma etapa longa todos ficamos descansados, mas quando sabemos que vamos fazer uma etapa pequena, todos trememos. E de facto este ano as etapas foram realmente complicadas, tínhamos percursos muito lentos, isto porque tínhamos etapas de areia, que se fosse há dois ou três anos íamos a 100 km/h ou mais, mas como choveu muito nestes últimos anos o deserto está coberto de ervas e as ervas ficam tão compactadas com a areia que parece rocha dura, não se consegue passar, tem de se ir muito devagar. Então nós fazíamos quilómetros e quilómetros a 30 ou 40 km/h, porque não se conseguia ir mais depressa e depois nunca mais chegava o fim.
Com tudo isto as horas de sono começavam a ser cada vez menos, uma pessoa começa sentir o cansaço e a quebrar.
Além disto tivemos três dias a fazer pistas muito estreitas no meio de árvores. Enquanto os carros e as motas passam, os camiões batem nas árvores e deitam árvores abaixo. Havia muitas árvores tombadas e no fim acabei eu por deitar também uma abaixo.
Por estas razões o Dakar foi extremamente complicado e extremamente difícil.
Para mim faço um balanço positivo, porque consegui chegar ao fim e andei sempre a um bom ritmo, nunca fiquei para trás. Mas tive vários problemas que me fizeram perder tempo e que chatearam e desmoralizaram. Eu também confesso que pensei que o meu camião tivesse uma etapa mais acima em termos de evolução. Ainda temos que melhorar muitas coisas. Não tinha tomado consciência disso e tornou as coisas mais difíceis em certos aspectos.
Depois há o factor da sorte, umas coisas correm bem, outras mal. Por exemplo um dia furámos um pneu, íamos relativamente depressa quando furámos, o pneu começou a rodar na jante depois de ter rebentado, a borracha galvanizou à jante e tivemos uma hora para arrancar o pneu, porque ele não saía. Um pneu que se troca em quinze minutos no máximo.
Enfim há sempre estas pequenas coisas, mas também é difícil fazer um Dakar sem ter problemas.
Que planos para o futuro?
Eu gostava de fazer mais um ano de corridas, gostava de fazer uma ou duas corridas da Taça do Mundo, evoluir o camião e fazer o Dakar para fazer um resultado melhor. Estou nesta fase a falar com os patrocinadores, ver até que ponto eles me dão abertura ou não, mas era essa a minha ideia. Claro que estou sempre sujeita à verba que consigo arranjar, porque é muito difícil de arranjar patrocínios e é o que me falta neste momento: saber que dinheiro é que tenho para saber o que posso fazer.
O que eu gostava de fazer era isto: fazer duas provas, penso que não conseguimos fazer mais; fazer uma série de modificações no camião de que já temos consciência, e depois partir para o Dakar melhor preparados e melhor treinados. Este ano, não treinei praticamente nada. Estive o ano todo praticamente sem conduzir.
Ainda vamos ver a Elisabete a fazer o Dakar em carro ou até mesmo em moto, a sua categoria de origem?
Em motos provavelmente não. Eu deixei as motos talvez até com uma certa frustração por não conseguir fazer melhor, que era o que eu queria: melhorar. Na altura já não conseguia meios, nem económicos nem de estrutura, para poder melhorar. A opção de parar de andar de mota foi nestes termos: “assim não consigo melhorar, então não vale a pena!”. Se calhar por isso é que eu estou nos camiões, porque de facto não era o meu momento de deixar as corridas ainda.
O camião é um desafio muito maior que o automóvel, porque é muito mais elaborado, muito mais complicado, é um desafio muito grande e por isso acaba por me entusiasmar mais.
Não vou dizer que um dia não venha a fazer corridas de automóvel, mas isso é para o futuro, lá para a reforma como eu costumo dizer na brincadeira.
Como é que surge a ideia de contar as histórias do Dakar em BD, com os “Portugas no Dakar”?
A ideia da banda desenhada foi uma ideia que surgio no primeiro Dakar que eu fiz de mota. Eu lembro-me de estar a fazer a travessia de barco de Espanha para Marrocos, de estar sentada na mesa com os brasileiros e eles começarem a contar-me histórias do Pedro Amado. O Pedro Amado tem histórias de morrer de rir. Então dei comigo a pensar que de facto aquilo parecia uma história de banda desenhada.
Esse meu primeiro Dakar, foi um Dakar de muitas peripécias, de muitos problemas.
Já em 2001, quando fiz o último Dakar em moto, talvez porque imaginei que poderia ser o meu último Dakar, pensei que era a oportunidade para fazer o livro de banda desenhada. Então contactei o Luís e propus-lhe fazer o trabalho.
Começámos a criar condições para fazer o trabalho, os dois juntos e assim foi. Era suposto ser só um volume, mas depois as histórias eram tantas, até porque decidi não fazer só as minhas histórias, mas também dos outros pilotos que faziam o Dakar em mota. Portanto acabámos por fazer dois volumes. O segundo volume estará para sair em meados deste ano.
Este trabalho foi um trabalho que me deu muito gozo a fazer, porque é uma forma de imortalizar histórias que não se contam a ninguém, que guardamos para nós, e é uma forma de deixar para o futuro a forma como os portugueses se conseguem adaptar a diversas situações. Acho que os portugueses têm uma inteligência especial para estas circunstâncias e conseguem muito bem resolver problemas.
A par disto, também queria mostrar às pessoas o que é o Dakar, o que vivemos lá e como se resolvem as situações, uma vez que a maior parte das coisas que saem para a imprensa só contam os resultados basicamente e meia dúzia de peripécias. Eu achei que ali conseguia transpor para o texto e para os desenhos as nosssas dificuldades e os nossos problemas, e era essa a minha ideia.
E o livro?
Fiquei-me por este da banda desenhada. Agora vem o segundo volume com um pouco das minhas histórias. Não digo que um dia não possa vir a escrever o livro, mas para já achei que era mais interessante a banda desenhada porque é uma forma mais divertida de contar essas mesmas histórias.

TSR - Sofia Monteiro @ 1-2-2005 00:00:00


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